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Cardeal Carlo Maria Martin. Fonte: http://1.bp.blogspot.com |
A escolha do argentino Bergoglio, agora Papa Francisco, surpresa para uns e esperado para outros (especula-se que teria ficado em segundo lugar na última votação do conclave anterior) levanta uma série de questões. Primeiramente ilustra um poder de articulação dos cardeais do continente latino americano frente a ala européia e representa a urgência na defesa do maior reduto católico do mundo, onde se encontram cerca de 40% de seus seguidores, mas também onde são perdidos 400 fiéis todos os dias só no Brasil.
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Habemus Papam Francisco Fonte: http://oglobo.globo.com |
A esperança reside em sua humildade e simplicidade. Quando cardeal, Bergoglio recusando os luxos oferecidos pela igreja argentina, andava de transporte público, cozinhava sua própria comida e morava em um apartamento simples em Buenos Aires. Sua visão política sobre a pobreza também é diferenciada em relação a outros sacerdotes. Apreciador do contato com o povo, não raras as vezes era visto em favelas e hospitais em seu trabalho evangelizador. Essas características indicam, segundo jornalistas, vaticanistas e teólogos um papado mais missionário, menos concentrado em Roma e mais perto dos fiéis, uma Igreja mais simples e menos burocratizada. Em suas primeiras ações pontifícias, Francisco realmente reflete essa inclinação para a simplicidade e proximidade ao povo. Optou por um anel de prata (banhado a ouro) ao invés de ouro maciço como o de costume, a cruz que leva consigo é de aço, alguns paramentos foram recusados assim como a limusine particular, preferiu em carro de um funcionário do Vaticano. Em seus discursos até o momento, o tema da pobreza e a necessidade de uma instituição com menos pompa sempre tem estão presentes.Também tem causado dor de cabeça aos seguranças por não respeitar protocolos. O já citado Leonardo Boff, precursor da Teologia da Libertação no Brasil (combatida por Bergoglio na Argentina) crê em uma sobreposição do povo à hierarquia, uma maior participação e importância dos leigos além de trilhar o caminho do ecumenismo. Opinião semelhante é a de Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Felix do Araguaia. Companheiro de Boff na propagação da Teologia da Libertação, Casaldáliga também foi punido durante o papado de João Paulo II, por sua posição progressista e aguerrida na defesa dos índios contra latifundiários locais. Segundo ele, a escolha de Bergoglio "é um respiro para a Igreja" e esperançoso aguarda por mudanças que volte a Igreja aos pobres e a torne solidária na defesa dos direitos humanos.
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Papa no ônibus, junto com cardeais e padres. Fonte: http://s2.glbimg.com/ |
Em contraponto às suas características positivas, pesam sobre o bispo de Roma a 'inconveniente' ligação ao último regime ditatorial argentino, seu silêncio sobre as atrocidades ocorridas na época e sérias acusações sobre possível atuação criminosa, favorecendo a captura, prisão e tortura de dois padres de sua ordem jesuíta e envolvimento na entrega de filhos de presas políticas para adoção. É intrigante como a Igreja não consegue se desvencilhar de polêmicas. Ora fruto do envolvimento de sacerdotes em casos de pedofilia, ora em escândalos na esfera burocrática, perpassando defesas de governos assassinos e criminosos ou silenciando-se sobre eles. Apesar de falta de consenso sobre isso - algumas organizações como o Conadep* defendem a inocência de Bergoglio enquanto outras como as Mães da Praça de Maio o acusam, é inegável que ao menos complacente com um regime facínora ele fora.
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Cardeais na bela e faraônica Basílica de São Pedro. Fonte: http://oglobo.globo.com |
Fazer da instituição Igreja Católica, conhecida por sua suntuosidade, descer aos pobres e tornar-se mais simples é uma mudança de ar positiva, necessária e urgente, contudo não podem ficar relegadas à uma mudança mais de forma do que de conteúdo. Uma práxis cristã alinhada com a defesa do povo pobre, oprimido, espoliado e contra as desigualdades depreenderá esforços na revisão de ranços históricos e ruptura de privilégios. Tomara que suas atitudes não sejam apenas a de um homem e influenciem toda a instituição. Tomara que se inaugure uma nova era onde a Igreja "beba do cálice dos pobres"**. Tomara que, com a mesma rigidez que sempre destinou à defesa da doutrina, trate os casos de abusos praticados por sacerdotes. Tomara que Francisco continue surpreendendo com suas atitudes e promova mudanças que atendam aos anseios do mundo moderno, não pelo caminho do individualismo e materialismo, mas na revisão de seus arcaicos conceitos morais que a distanciam de um mundo que já saiu da idade média, por mais que a tentem trazer de volta. Não sou tão esperançoso, mas tomara que eu esteja errado.
* Conadep - Comissão Nacional de Desaparecimento de Pessoas.
** "Deixa a Cúria, Pedro!" Poema de Dom Pedro Casaldáliga.
Dicas de Leitura:
http://amahet.blogspot.com.br/2009/11/habemus-papam-allan-mahet-texto-escrito.html
http://blogdomaximus.com/2013/03/11/o-conclave-de-2013/
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/518043-para-o-conclave-as-previsoes-sobre-os-cardeais
http://www.ionline.pt/mundo/diario-secreto-cardeal-desvenda-eleicao-ratzinger-esteve-tremida
http://www.publico.pt/mundo/noticia/morreu-o-cardeal-carlo-martini-que-defendia-uma-igreja-mais-compreensiva-e-aberta-ao-mundo-1561209
http://br.noticias.yahoo.com/morre-cardeal-martini-figura-destaque-dos-cat%C3%B3licos-progressistas-163806791.html
http://pensamentos-vagabundos.blogspot.com.br/2012/09/o-cardeal-carlo-maria-martini-o-homem.html
http://fratresinunum.com/tag/cardeal-carlo-maria-martini/