domingo, 28 de novembro de 2010

A Violência e a Manipulação da Mídia: Uma 'Guerra' Carioca.


Por Allan Mahet


Muito providencial um dos itens das 10 Estratégias de Manipulação através da mídia por Noam Chomsky, postado há pouco.
Criar problemas e depois oferecer soluções

Esse método também é denominado "problema-reação-solução". Cria-se um problema, uma "situação" prevista para causar certa reação no público a fim de que este seja o mandante das medidas que desejam sejam aceitas. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o demandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para forçar a aceitação, como um mal menor, do retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.

De modo algum pretendo aqui expor que as ações violentas dos últimos dias tratam-se apenas de ampla manipulação midiática. Elas são reais, graves e inaceitáveis, mas não podemos que os fatos ceguem nossa criticidade.

O problema reside nas falácias do discurso governamental e reproduzidas por toda a grande mídia, que são acatadas sem qualquer parcimônia pela população, bestificada diante dos carros e ônibus incendiados diariamente e maravilhada com o avanço de tanques e caveirões. População esta que a pouco pode conferir nos cinemas uma verdade sem muita maquiagem sobre a questão da violência no Rio.

A primeira mentira é a de querer nos fazer crer na total organização e coordenação das ações criminosas. Existem milhares de escutas telefônicas, algumas centenas de X-9 e profissionais infiltrados no tráfico que conseguiriam identificar tamanha mobilização. Se considerarmos essa possibilidade como viável, das duas uma: ou governo realmente mente ou nossa inteligência policial não é tão inteligente assim. E para mim, é inadmissível uma inteligência menos inteligente do que eu.

Posteriormente, em todo o discurso faz-se uma defesa da ideia de desarticulação do tráfico de drogas. MENTIRA !! Se fosse o Padre Quevedo iria falar: "é charlatanice, isso nos existe". É impossível acabar com o tráfico. Existindo consumidores existirá demanda, existindo demanda haverá venda. Havendo venda... é tráfico. Existindo o playboy do condomínio de luxo que faz passeata pela paz abraçando a Lagoa, o Leblon, o Cristo Redentor, que dá sua cheiradinha dominical, existirá tráfico.  Existindo o juiz que aprova o habeas corpus dos realmente grandes traficantes; existindo a polícia corrupta, arregada do tráfico; existindo a criminalização da pobreza; existindo a vista grossa de nossa 'polícia de fronteiras'; existindo o mega empresário que negocia com os narcotraficantes internacionais e existindo vossas excelências, políticos fichas podres, existirá o tráfico de drogas. Chega a serem indecentes as manchetes intitulando as ações à Vila Cruzeiro, como o Dia D da guerra ao tráfico (O Globo de 26/11/2010) e chamá-las de ataque decisivo. O tráfico, como dito, continuará existindo, invadindo a Vila Cruzeiro, o Alemão ou a Rocinha. Esta simplicidade que a mídia tenta nos empurrar é inverídica.

As emissoras de rádio e televisão durante toda essa semana perpetuaram o clima de medo reprisando imagens e mais imagens de ônibus e carros pegando fogo. Inundaram-nos com mapas, vídeos, fotos e infográficos detalhando cada movimento dos bandidos, apavorando-nos. Mesmo tendo dito que as ações não são uma farsa, paremos para refletir... as únicas mortes que ocorreram até agora foram provocadas por quem? A polícia. Então, será que o clima de pavor é tão justificável assim? Claro que não sou louco de falar que aqueles que moram próximos a essas áreas devem passear tranquilamente como se nada estivesse acontecendo ou que não devemos nos manter atentos nos coletivos ou carros. Mas acredito ser injustificável, por exemplo, moradores da Zona Sul demonstrarem pânico igual ao maior de moradores da Penha ou de algumas áreas da Zona Norte carioca. Nesta área nobre da cidade foram 'apenas' 2 incidentes sem vítimas dos cerca de 100 em todo o estado, ou seja, 2% do total. A mídia, contraditoriamente, dizia que devemos manter a calma, mas nos inflamava à esquizofrenia e à fobia.

Também me chamou muita atenção o fato de as ações policiais se concentrarem em favelas nas quais o Comando Vermelho tem o domínio, em detrimento às demais comandadas por outras facções ou pelas milícias com as quais (ambas) o poder público tem adotado certa permissividade nos últimos tempos. Será acaso as UPPs serem instaladas, em 90% dos casos, em regiões antes controladas por essa mesma facção?

A massificação e obsessividade pela violência acabam assim por nos contaminar e chega ao nível máximo quando, ao vivo, foram mostradas imagens de traficantes fugindo da Vila Cruzeiro em direção Alemão. O mais leve dos discursos que pude ouvir foi o de jogar várias bombas e exterminá-los. É obvio que no intimo de todos, essa é uma vontade latente. Anos e mais anos sofrendo e convivendo com tiroteios, arrastões, roubos e etc, esse seria um desejo mais que aceitável. Porém, chamo mais uma vez à racionalidade. O Estado não pode ser regido por emoção. Como em uma frase de Fraga em 'Tropa de Elite 2', não podemos permitir que o Estado seja tão ou mais violento quanto os que são considerados violentos. Para os bandidos não existe regra, mas para o Estado sim. A concordância com tal ato poderia nos custar caro mais tarde. Não é papo de 'direitos humanos', mas a aprovação de métodos semelhantes podem nos levar a perda de direitos, de nos 'cidadãos de bem', futuramente. Sob o signo do medo no Governo Bush, vários direitos individuais da população foram violados. Sob argumentos, muitas vezes fabricados, atropelaram preceitos básicos e conseguiram apoio quase irrestrito para bombardear um País que não possuía um artefato sequer de destruição em massa. Como em parte da citação de Noam, que iniciou este post, são em momentos assim que o povo acaba por demandar leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Mas nada me deixa mais estupefato do que o coro que em uníssono clama pela pena de morte sumária e ao vivo, mas que demonstra uma complacência franciscana com relação a políticos corruptos, latifundiários grileiros e empresários inescrupulosos. Uma verba desviada da saúde ou da previdência pode matar mais em um mês do que todos os bandidos do Rio de Janeiro em um ano. Um latifundiário condena a morte milhares de famílias assim como o empresário espolia outros milhares de cidadãos. Mas a estes impera um desejo de justiça legal. Cadeia aos corruptos que matam milhares ao dia e aos financiadores da violência e morte ao 'pé de chinelo' sem camisa que ateia fogo aos ônibus.

E mais uma vez recorrendo ao didático 'Tropa de Elite 2' cabe-nos a pergunta: porque caveirão não entra em condomínio de luxo? Por que 'policia' não dá tapa na cara de político? Por que as investidas são sempre em áreas pobres de favela? Por que existe favela? As respostas cabem a cada um de nós procurarmos.

Uma análise bem interessante proposta por minha esposa, a também assistente social, Cristiane Maciel Mahet, chega a ser mais instigante. Diante da popularidade do filme de José Padilha e a discussão que o mesmo trouxe é muito providencial tudo que está ocorrendo, justamente agora. E como em um passe de mágica toda a criticidade trazida pelo filme em relação à atuação do Estado e seus interesses escusos parecem diluídas a pó (sem trocadilhos) na aprovação e contemplação vinda desses mesmos espectadores à mobilização do poder estatal em suas ações de força. Os mesmos que no começo do mês compreendiam a lógica nefasta da violência, hoje aplaudem os soldados de preto, de azul e os camuflados com suas armas em punho marchando em nossas ruas. Parece meio teoria da conspiração, mas diante de nossa realidade fantástica, nada é tão impossível assim.

Queria eu estar errado e tudo que escrevi não passar de balela.

Queria eu que com a 'tomada' da Vila Cruzeiro e do Alemão, tudo se resolvesse.

Queria eu que as UPPs fossem realmente a presença de um estado de direito nas comunidades pobres.

Queria eu que o problema da violência se resolvesse em uma semana apenas.

Queria eu que a real intenção de toda essa zona fosse a nossa segurança e não a publicidade, os votos e a garantia do poder.

Mas tenho a convicção de que não é!



Para saber mais, recomendo: 

http://www.revistabrasileiros.com.br/edicoes/40/textos/1275/

http://coletivodar.org/violencia-no-rio-a-farsa-e-a-geopolitica-do-crime_2681

http://www.cartacapital.com.br/sociedade/cacada-na-favela-da-vila-cruzeiro

http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/sakamoto-o-estado-pode-usar-metodos-de-criminosos.html

http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/eduardo-guimaraes-a-cor-da-tragedia-no-rio.html



Charge de Latuff: 

















6 comentários:

  1. http://nemfroid.blogspot.com/2010/11/o-artigo-que-eu-queria-escrever.html

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  2. Reproduzo aqui o meu comentário deixado no Carta Capital.

    Como já tinha escrito anteriormente em um dos meus tweets, essa "guerra" atual no Rio nada mais é do que a espetacularização midiática da nossa Sociedade do Espetáculo (Guy Debord).

    O grande filósofo francês, Jean Baudrillard, à época dos atentados de 11 de setembre, indentificou os ataques como verdadeiras representações cinematográficas com o único escopo de simular o real através das imagens.

    O mesmo está acontecendo agora com esse problema no Rio: mídia e instituições governamentais reproduzem incessantemente imagens que servem a "entorpecer" os espectadores para levá-los a crer que elas são o "real" de uma realidade construída por eles mesmos (mídia e instituições governamentais).

    Saudações.

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  3. Vida, obrigada pela citação.
    Maravilhosa sua análise. É realmente fantasioso, mas não fora de uma possível realidade. Não coloco minha mão no fogo pois posso queima-la !!

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  4. Devemos tratar os bandidos de Vossa Excelência ou de Ilustríssimo?

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  5. Devemos tratar as Vossas Excelências e os Ilustríssimos como tratamos os bandidos. Isso se quisérmos realmente resolver alguma coisa ou só fazer jogo de cena para a mídia.

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