domingo, 23 de junho de 2013

A Rua é Nossa! E Agora ?

Observei a necessidade de conter um pouco a euforia e pensar sobre os acontecimentos. Não há como negar a fascinação com esses movimentos, e não poderia ser diferente, vendo uma multidão reivindicando por direitos. Mas ao mesmo tempo nutro preocupação na cooptação de bandeiras históricas pelas alas conservadoras que querem se fazer parecer progressistas e democráticas e como isso pode levar a um movimento reformista.

Estive presente nos dois grandes atos que aconteceram no Rio de Janeiro e encontrei diferenças bem visíveis entre os dois. O primeiro ato realizado na Segunda-Feira, dia 17, apresentava um objetivo traçado e mais organizado, os partidos ainda estavam presentes e cumprindo um suposto acordo realizado em São Paulo com o MPL (Movimento Passe Livre) de que suas bandeiras não poderiam se sobrepor as do movimento e que ficariam em lugar especifico e não espalhados ao longo da manifestação. Ao final, até ocorreram agressões, mas na maioria do tempo o convívio foi tranquilo. Já o segundo ato (dia 20), pelo qual apenas passei, tive a nítida impressão de estar em uma micareta: playboyzinhos de academia com cerveja na mão, mulheres de shortinho com maquiagem para festas e alguma pegação. As bandeiras de partido não puderam ser erguidas desde o inicio do protesto e o caráter nacionalista pacífico, pregado pela grande mídia e pelo governo dava o tom do evento. 

O entusiasmo desse 'gigante acordado' é válido, mas há de serem feitas algumas ponderações. Se a classe média acordou e entendeu que o mundo vai para além do carro sem IPI, do shopping no domingo e do apartamento financiado, sou o primeiro a aplaudir. Se tomam as ruas bradando por direitos que não fazem parte do seu dia a dia, é ótimo e emocionante. Porém não são novos os dizeres em cartazes que levam às ruas. Por anos a fio movimentos sociais, organizações populares, sindicatos não pelegos e uma pequena minoria de partidos pró-trabalhadores defenderam tais lutas contando com a indiferença da mídia, dos governos e de muitos destes que agora na rua estão. Os que enfrentaram o escárnio de parcelas consideráveis da população e a opressão da polícia, agora foram esquecidos e são rechaçados. Tal posição é justificável na descrença na política mesquinha da troca de favores e nos políticos corruptos agravada pela trairagem do PT. No entanto, indicam uma inquietante desconfiança de que esses grupos não sejam apenas desesperançosos com a politica ou temerosos de terem o movimento aparelhado e sim defensores de ideais ultranacionalistas que classificam-se como não sendo de esquerda e nem de direita, elevando o amor à pátria acima do qualquer corrente politica. Estas são ideias muito próximas as que já surgiram no país na década de 30 através do Integralismo. Cartazes com inscrições do tipo 'Brasil Ame-o ou Ame-o', 'Nem Direita e Nem Esquerda, Sou Brasileiro' e 'Meu Partido é o Meu País' denotaram o pensamento de parte das pessoas que estiveram nas manifestações.

Parece que ao atingir o objetivo básico do movimento, este perdeu um pouco o rumo. A ausência de uma direção politica, não aparelhada, mas construída em conjunto com diversos movimentos, pode ter criado certa esquizofrenia. As pautas levantadas são claramente, em sua maioria, de esquerda, porém a participação da esquerda organizada tem sido combatida o que nos levaria a crer em uma posição anárquica (que a meu ver também são bem vindos), no entanto os mesmos que dizem sem partido são os que gritam 'sem violência', 'sem vandalismo', se vestem de branco e se elevam em um orgulho patriótico vazio. O que se espera? Que os governantes saiam de seus gabinetes e entreguem a chave aos manifestantes de modo pacífico? Se não são os anarquistas que estão no front (infelizmente misturados com aqueles que aproveitam o embate para efetuar saques), quem são eles? Que posição política exaltam?

Afora das agressões sofridas pelos militantes de partidos e movimentos sociais, essa a nulidade do caráter político das manifestações, que beneficia a direita conservadora e é reverenciada pela grande mídia, limita o alcance da luta e pode esvaziar um momento único na história recente do país. É necessário entender que a situação atual e os fatos pelos quais estamos indo contra (falta de investimentos em saúde, educação, segurança, opressão, etc) não são fruto de um programa de governo apenas ou de uma mente maquiavélica de algum governante (eles até as possuem) e sim características de um sistema econômico-político chamado capitalismo.

É nesse sentido que a ausência de uma identidade política mais madura e definida pode comprometer a luta. Os gritos de hoje tem de ser a favor do transporte, de escola, de saúde, pois esse pragmatismo objetiva a luta, mas a guerra à frente tem de ser por mudanças muito mais profundas. Ter em mente e em vista que a desigualdade na qual vivemos é inerente ao sistema hoje vigente, e que esta não é sua consequência e sim seu fundamento, aquilo que o sustenta. O fim da opressão e dos opressores não existe senão fora do capitalismo. Também não existem heróis messiânicos que restabelecerão a ética política e implementarão todas as transformações desejadas. 

De maneira alguma pretendo deslegitimar o movimento. Creio que muito mais valorosos são quando eles se iniciam dessa maneira, quando sua gênese não está atrelada a um partido e sim na mobilização popular. Porém, há de se existir um caminho político estabelecido. Ao se recusar isso, abre-se espaço para essas milhares ou milhões de pessoas que se encontram nas ruas sirvam de massa de manobra dos verdadeiros opressores, de uma elite conservadora e uma mídia manipuladora. Não devemos indicar uma ruptura do movimento, mas sim buscarmos a união na convergência de desejos e fortalece-lo com uma politização mais madura. 

Algo muito grande e importante aconteceu e pegou a todos de surpresa: políticos, mídia, esquerda, direita, etc. Muita coisa talvez tenha de ser repensada. Estratégias e os papéis das mais diversas organizações terão de ser estudados. Governantes terão mais trabalho para manter seus status quo. A Vênus platinada, que agora tenda determinar os rumos do movimento, foi humilhada, obrigando seus repórteres a trabalhar disfarçados captando imagem de celulares, microfones sem identificação, filmando de cima de prédios ou com imagens de helicópteros e sabe que sua vida não será tão fácil a partir de agora. Partidos que se propõem uma luta ao lado dos trabalhadores precisarão buscar novas ações para atingir a sociedade. O momento é propício para grandes transformações, mas também aberto a soluções reformistas e conservadoras.

Nenhum comentário:

Postar um comentário